sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Instituto Viva Infância

Hoje dei início a um novo ciclo. Assinei os papéis e agora faço parte da equipe do Instituto Viva Infância - não como funcionária, mas dentro de um curso de Psicologia Clínica, numa espécie de "especialização" na área. Fui recebida com os braços abertos neste curso, que conta com aulas teóricas quinzenais, atendimento a crianças (com e sem autismo) e supervisoes. 
Trata-se de uma Organização sem fins lucrativos (OSCIP) de Salvador, que visa a prevenção precoce em saúde mental e a capacitação profissional, a partir da premissa de que o indivíduo se constitui em sua relação com o outro - o que a meu ver, é genial.

A equipe é interdisciplinar, composta por psicólogos, psicanalistas, terapeutas ocupacionais, pediatras e (psico)pedagogos - todos capacitados pelo curso ministrado lá mesmo. São realizados cerca de 40 atendimentos mensais a crianças e aos seus familiares, seja ele individual ou em grupo. O Instituto conta também com um ateliê terapêutico, brinquedoteca e biblioteca aberta à comunidade. 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O Brincar na Terapia.

Winnicott já dizia que o brincar é universal. Somos "seres brincantes" e isto é intrínseco ao ser humano. Brincamos desde que nascemos - e há quem diga que brincamos antes mesmo disso, quando chutamos a barriga de nossas mães e elas dizem que seremos grandes jogadores de futebol. Desde então não paramos mais, fazemos de tudo um brinquedo e transformamos tudo em brincadeira. 

Muita gente não sabe, mas o brincar na vida de um ser humano, sobretudo durante a infância, é muito importante. Primeiro porque através do brincar a criança acelera o seu desenvolvimento: ela aprende a fazer coisas e a criar brincadeiras; aprende a socializar, a conviver, a trabalhar em grupo, a dividir e a respeitar o sistema de regras. O brincar instiga a curiosidade, melhora a autoconfiança, a autonomia, proporciona o desenvolvimento da linguagem, do pensamento, da concentração, da atenção e estimula também o lado motor e sensorial. Em segundo lugar, é através da brincadeira que o corpo da criança se comunica. Diferente dos adultos, que usam a fala como principal forma de expressão, a criança é ativa, ela é inquieta por natureza. Elas não sabem explicar como se sentem quando passam por situações complexas de medo, apreensão, ansiedade ou traumas, porque pra elas isso tudo é muito novo. Por isso seus corpos se agitam quando elas não conseguem representar algo pela palavra. E, por fim, brincar é importante porque é bom demais, convenhamos! Fica difícil acreditar que possa existir uma geração de adultos psicologicamente saudáveis se, na infância, eles foram crianças pouco estimuladas a serem criativas ou pouco estimuladas para expressar suas emoções, pois estavam ocupadas demais aprendendo a ser doutores, chefes, ou grandes homens.

Muita gente despreza o trabalho terapêutico com crianças por acreditar que estes profissionais estão sendo pagos apenas para brincar com seus filhos. Não é bem assim que funciona. Na terapia a brincadeira tem uma finalidade e é possível colher muitas informações sobre a criança, sobre seu contexto e sobre sua família/criação. Os psicólogos utilizam brinquedos como instrumento de trabalho para entrar no universo inconsciente da criança, pois acredita que o brincar testemunha a sua realidade psíquica.
Através do brinquedo e do brincar o terapeuta observa como a criança expressa suas emoções e como lida com situações cotidianas, bem como verifica como ela reage às frustrações, perdas e expectativas. A partir disso, faz a sua intervenção buscando fortalecer o aspecto emocional do menor. O brinquedo não é escolhido aleatoriamente, mas sim a partir do desenvolvimento da criança e do seu momento psíquico. Eles podem ser desde materiais gráficos (como papel, lápis, tesoura) ou estruturados (jogos competitivos, com regras, de tabuleiro), até massa de modelar, caixas, cubos, legos ou outros brinquedos do universo infantil, tais como bonecos, carrinhos, etc. E para provar a riqueza do trabalho psicológico, é a partir do brincar que, dentro do set terapêutico, o psicólogo consegue observar: 

·                     Qual brinquedo foi escolhido inicialmente pela criança, investigando porque ela escolheu este objeto e não outro. Ou seja, por qual razão este brinquedo atraiu sua atenção.

·                     O uso do espaço por parte da criança, afim de verificar se se trata de uma criança muito calma ou muito agitada, bem como sua necessidade de espaço.

·                     O uso do tempo como um indicador se a criança é dispersas demais ou muito atada ao estímulo.

·                     A manipulação do objeto no que se refere à psicomotricidade da criança, seus movimentos finos e o que é esperado para sua idade.

·                     A autonomia ou dependência da criança. Pode-se verificar se a mesma quis entrar no consultório acompanhada ou sem os pais; se conseguiu escolher sozinha os brinquedos, ou se ficou dependente da vontade do terapeuta; se é capaz de pedir ajuda ou se consegue realizar as atividades por si só.

·                     A curiosidade da criança.

·                     O uso da fala, estimulando-a sempre a conversar sobre o que está fazendo e como se sente em relação a isto.

·                     A plasticidade: sua criatividade, sua capacidade de abstração e de transformar elementos em outros (por exemplo, transformar uma mesa em uma casa).

Afirmo que, num consultório de psicologia clínica voltado para o público infantil, o principal indicador de que há algo errado com a criança é se, diante de tantos brinquedos, ela optar por não brincar. É quando não há o brincar, ou quando o brincar se dá de forma bizarra, que ascende-se a luz vermelha e constata-se que há alguma coisa fora do normal. Já dizia Winnicott: "O brincar é por si mesmo uma terapia, embora caiba ao psicoterapeuta a função de trabalhar com o material e o conteúdo do brincar." (1975) Portanto, intervir no brincar aponta a direção do tratamento na clínica com crianças. 

========================================================================================

El hecho de Jugar en la Terapia Psicológica

Winnicott decía que el hecho de jugar es universal. Somos "seres juguetones"  y eso nos es intrínseco. Jugamos desde que nacimos – y hay gente que suele decir que jugamos antes mismo de eso, cuando damos patadas dentro de la barriga de nuestras madres. Desde entonces no paramos más, hacemos de todo un juguete y convertimos todo en un juego.

Mucha gente no sabe, pero el hecho de jugar en la vida de un ser humano, sobretodo durante la infancia, es muy importante. Primeiro porque a través del hecho de jugar, los niños se desarrollan mas rápido: ellos aprenden a hacer cosas y a crear juguetes; aprenden a socializar, a convivir, a trabajar en grupo, a compartir y  a respetar el sistema de normas. El hecho de jugar instiga la curiosidad, mejora la autoconfianza y la autonomía, proporciona el desarrollo del lenguaje, del pensamiento, de la concentración, de la atención y estimula también las partes motriz y sensorial.  En segundo lugar, es a través del hecho de jugar que el cuerpo de los niños se comunica. Diferente de los adultos, que utilizan el lenguaje hablado como principal mecanismo de expresión, los niños son activos, son inquietos por naturaleza. Ellos no saben explicar como se sienten cuando viven situaciones complejas de miedo, incautación, ansiedad o traumas, porque para ellos todo eso son cosas nuevas. Por eso, sus cuerpos se ponen nerviosos cuando ellos no consiguen representar algo con la palabra. Y, por fin, jugar es importante porque es divertido, convengamos! Es difícil de creer que pueda existir una generación de adultos psicologicamente sanos si, durante la infancia, ellos fueran niños poco estimulados a ser creativos o poco estimulados a expressar sus emociones, pues estaban demasiado ocupados aprendiendo a ser doctores, jefes o grandes hombres y mujeres.

Muchos desprecian el trabajo terapéutico con los niños por creer que estos profesionales son pagados para jugar con sus hijos. No es así como funciona. En la terapia el hecho de jugar tiene un propósito y es posible obtener muchas informaciones acerca del niño, su contexto social y acerca de su familia o creación. Los psicólogos utilizan los juguetes como instrumento de trabajo para poder entrar en el universo inconsciente del niño, pues cree que el hecho de jugar indica su realidad psíquica.

A través de los juguetes y del hecho de jugar el psicólogo observa como el niño expresa sus emociones y como reacciona a las situaciones habituales, así como puede verificar como ella reacciona a las frustraciones, pérdidas y expectativas. A partir de eso, hace su intervención buscando fortalecer el aspecto emocional de los pequeños. Los juguetes no son seleccionados al azar, sino a partir del desarrollo del niño y de su momento psíquico. Ellos pueden ser desde materiales “gráficos” (tales como papel, lápiz, tijera) o “estruturados” (juegos de competición, con normas, de tablero), hasta mismo plastilina, cajas, cubos, legos o outros juguetes del universo infantil, tales como  muñecas, cochecitos, etc. Y para comprobar la riqueza del trabajo psicológico, es a partir del hecho de jugar que, dentro del ambiente terapéutico, el psicólogo consigue observar: 

·         Cual juguete fué seleccionado inicialmente por el niño, investigando porque él lo eligió y no a otro. Es decir, porqué razón este juguete le llamó la atención;

  •    La utilización del espacio por parte del niño, con el fin de verificar si el niño es demasiado tranquilo o agitado, así como su necesidad de espacio;

  •            La utilización del tiempo como un indicator de distracción o de demasiada atención en un solo estímulo;
  •      La manipulación del objeto en lo que se refiere a la psicomotricidad del niño, sus movimientos finos y lo que se espera para su edad;
  •             La autonomía o la dependencia del niño. Es posible verificar si a él le gusta entrar en la oficina acompañado o sin los padres; si él consigue eligir los juguetes por su propia cuenta, o si es dependiente de la voluntad del psicólogo; si es capaz de pedir ayuda o si consigue realizar las actividades solo;
  •              La curiosidad del niño;
  •     La utilización del lenguaje, estimulándole siempre a hablar acerca de lo que está haciendo y como se siente en relación a eso.
  •       La plasticidad: su creatividad, su capacidad de abstracción y de convertir unos elementos en otros (por ejemplo, convertir una mesa en una casa).

Afirmo que, en un despacho o en una consulta de psicología clínica dirigida al público infantil, el principal indicator de que hay algo malo en el niño es si, delante de tantos juguetes, él elige no jugar. Es cuando no hay el hecho de jugar, o cuando le ocurre de manera excepcional que se enciende una luz roja y se encuentra que hay algo fuera de la normalidad. Winnicott dijo que: "El hecho de hogar es por si mismo uma terapia, aunque toque al psicólogo la función de trabajar con el material y con el contenido del hecho de jugar." (1975) Por lo tanto, intervir en el juego apunta a la dirección del tratamiento en la clínica con los niños.

Traducido por Maria José Otero

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Mas que rir de tudo é desespero.

Quando o assunto é morte, nunca estamos preparados de fato. Mas quando ouvimos falar sobre suicídio, realmente nos assustamos. Foi o caso do memorável ator, Robin Williams. O mundo ficou realmente chocado quando soube de seu enforcamento, e não é pra menos. Não quero aqui falar sobre seu suicídio por conta do uso de álcool e drogas, problemas familiares e depressão, porque infelizmente nossos ouvidos já estão acostumados a escutar casos semelhantes – como o ocorrido com Chorão e Champignon, do Charlie Brown Jr, e o humorista Fausto Fanti. Quero falar minha opinião sobre o que nos chocou de verdade a partir dos muitos comentários que escutei sobre o assunto.
Muitas pessoas disseram que Robin Williams marcou suas vidas por ser tão engraçado, divertido, por irradiar alegria. Todos sabem que apesar de ele ter se destacado em diversas categorias de filmes, seu forte mesmo sempre foi a comédia, o improviso e o stand-up comedy. 
Como pensar, então, que uma referência na comédia cinematográfica chegaria a este extremo? Como pensar que uma pessoa que passava tanta felicidade, conquistava tantos sorrisos, estava na verdade, em tristeza profunda? Bem... A gente nunca pensaria, pois coletivamente falando, todos nós criamos uma imagem bonita deste ator.
Este é o tipo de coisa que acontece diariamente com todas as figuras públicas e quase sempre nem percebemos. Não julgo mal, são estratégias de marketing para vender o produto. Na maioria das vezes, os próprios produtores e empresários criam um personagem dito comercial – mudam cortes de cabelo para que as pessoas pareçam mais descoladas, ou vestem roupas específicas para que a pessoa pareça mais ousada. Noutras, a mídia cria histórias que nos fazem acreditar que a celebridade tem uma personalidade específica, quando na verdade não tem. Existe ali um personagem a ser vendido, não um ser humano real. E por não os conhecermos pessoalmente, acabamos criando uma imagem, um personagem, e fazemos desta imagem uma verdade absoluta. 
Creio que foi isso que chocou o mundo. De tanto nos passarem a ideia do ator alegre e feliz, através de grandes filmes, no dia de sua morte, nós negamos a todo o custo a ideia de que ele não fosse nada disso – ou que já tivesse sido feliz no passado, mas não no presente. Misturamos a imagem do ator com a dos personagens e fizemos disso uma pessoa só. É aí que está o conceito Jungiano de Persona: “o que alguém na realidade não é, mas o que ele mesmo e os outros pensam que ele é”. Deste modo, os noticiários mexeram com nosso sistema de crenças, com aquilo que julgávamos ser verdade. Por isso a tristeza, o incômodo, a inconformidade, o luto.
Aqui vai um alerta: o desespero está até nos risos. Ele está oculto na fala mansa e suave, nas palavras doces, em um olhar calmo e sereno. Assim como o chorar, o riso deve ser exato, comedido, oportuno, pois o rir demais também é perigoso. Lembre-se, as ações precisam de equilíbrio. Sempre. 

Deixo aqui o meu Adeus a este grande Ator.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Nem todo Pai é o Melhor do Mundo


O que dizer do meu pai...

Ele não foi o meu herói. Ele não me protegeu. Ele não foi aquele que acompanhou meus primeiros passos, nem foi aquele que me apoiou ou que me ensinou a enfrentar o mundo. Um dia eu até quis que isso fosse verdade, mas com o tempo passou. Porque eu me dei conta de que eu não tinha o melhor pai do mundo. Não porque eu não quisesse tê-lo, mas porque ele não quis me ter. Por algum motivo ele não quis. Por algum motivo ele não pôde. Os motivos eu não sei bem. Mas tenho certeza que não foi por falta de amor. Por isso eu não entendi a escolha... Mas eu precisei aceitar.
Foi quando eu percebi que eu até tinha um pai biológico, que, de tão distante, não conseguia ser um pai real. Daí por vezes eu tentei substituí-lo, mas como substituir o que não existe?
Tá certo que às vezes a gente quer muito ter um pai do lado, que às vezes isso nos deixa tristes. Mas na maior parte do tempo ele nem faz tanta falta e a gente consegue ser muito feliz. O que a gente tem é só curiosidade e um pouquinho de inveja de quem tem uma família completa. E nas relações, aprendemos a ficar na defensiva com medo de um novo abandono. Mas a gente aprende a viver sem pai. E vivemos.

A sociedade sempre sugere que encontremos uma figura paterna para chamarmos de “nosso”, seja o genitor, o marido da mãe, o irmão do pai, o avô, o que cria, que dá sobrenome ou até o próprio Deus... qualquer um. Já minha história de vida me fez acreditar que ser pai é só um título, mas que ter um pai é muito relativo.
Mas são nestas horas que percebemos como a mente humana aprende a lidar com estas situações. Ela se retrai para não naufragar diante de tais circunstâncias. E então, ao longo da vida, aprendemos a ter muitos pais, mas a gente sente que eles nunca foram verdadeiramente nossos. Eles são sempre pais de alguém muito próximo. E por maior a consideração que eles tem por nós, não é a consideração que faz de um homem, pai. “Qualquer um” é muito vazio. A gente quer pra sempre ter um pai só nosso.

Na verdade, talvez eu nunca saiba o que é ter um pai de verdade pelo simples fato de todo mundo ter o melhor pai do mundo e eu não. Mas é difícil ser bom em alguma coisa quando não se pratica. E muito mais difícil é ser o melhor do mundo em alguma coisa. 
Daí eu paro e penso. Quantos pais no mundo a fora estão se questionando onde falharam? O pai de minha mãe também não foi o melhor do mundo. Mas ela o amou. E o próprio pai do meu pai também não foi lá o melhor do mundo. Mas ele o amou. Porque o meu haveria de ser? Porque todo pai tem que ser o melhor de todos? E mais: Porque, pra ser de verdade, ele tem que, necessariamente, ser o melhor do mundo?

A única coisa que herdei do meu pai foram os olhos e a vontade de viajar o mundo. A gente se parece quando ri também. E às vezes quando andamos... Ah, e a gente é meio calado. E fazemos de tudo pra divertir os outros. Mas insisto em dizer que somos totalmente diferentes. E que não aprendi nada com ele. A decisão de pensamento, a força de vontade, a energia da ação, a autonomia, a independência e a razão – que fazem parte do retrato de um pai – eu aprendi com sua ausência. E sabe de uma coisa, eu devo agradecê-lo por isso. Por amar a pessoa que me tornei.

Chega uma hora no processo de formação da identidade em que o trauma já faz parte do passado. Muito embora o pai não tenha nada a oferecer, os rebentos se desenvolvem, crescem independentes e ainda vicejam. 
Muita gente tira grandes aprendizados e lições de vida a partir da convivência com o paterno. O que eu aprendi é que nem todos os pais são os melhores do mundo. Mas ainda assim, são insubstituíveis.


Andréa Martinez

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Recordar, Repetir e Elaborar.

Certa vez, uma amiga me chamou para conversar. Ela havia terminado o seu namoro há poucos dias e veio se queixar comigo que estava deprimida. “Que bom!” – respondi a ela, que não conteve sua expressão de surpresa – “Estranho mesmo seria se você não estivesse triste.” – e, em seguida, acolhi sua angústia. Algo semelhante aconteceu em minha primeira sessão de terapia quando eu disse à psicóloga que queria a sua ajuda para parar de sofrer. Sabiamente, ela disse que não poderia me ajudar, pois isto seria realmente impossível. Mais uma vez, surpresa. Realmente não estamos acostumados com isso.
É normal – e adequado, diria – que nos sintamos tristes diante de frustrações e perdas ao longo da vida. É normal ficar deprimido quando algo não vai bem. É normal chorar quando se está infeliz. É normal ficar cabisbaixo quando as coisas não saem conforme o planejado. É normal sofrer de vez em quando... Diria que “anormal” é quando alguém se alegra ao ser demitido de um emprego do qual gostava, ou quando sorri no enterro de um ente querido. Certamente você já ouviu histórias deste tipo e, certamente, elas lhe causaram estranheza.
Por que não nos permitimos vivenciar as nossas tristezas? De onde surgiu essa vergonha de chorar? Só nos permitimos chorar no chuveiro ou na hora de dormir. Temos medo de assumir nossas fraquezas e parecermos bobos. E quando o corpo fala mais alto e todos veem nossas lágrimas, rapidamente surgem pessoas oferecendo chá, água com açúcar, um lugar para sentar e, sobretudo, elas pedem para que você se acalme, numa luta desesperada para te ver sorrir. E quando o sorriso aparece, muda-se rapidamente de assunto para que você ignore o que está sentindo.

Muita gente ainda não se deu conta de que a tristeza é um mal necessário e que não é possível ser feliz o tempo todo. Parece que há um desconforto geral com o assunto e pouca disposição para suportar emocionalmente o sofrimento, seja pessoal ou do outro. Ultimamente tenho visto tantas pessoas se medicando desnecessariamente com ritalinas e fluoxetinas da vida, que imagino que mais triste do que ficar triste, é substituir a dor pela calma em frações de segundos.


Os dois indícios principais da Depressão são os sentimentos persistentes de tristeza e a perda de interesse ou prazer pelas coisas que costumava apreciar” (AMA, p. 42).

Agora, pense um pouco comigo: quem nunca se sentiu assim? Quem nunca acordou com o pé esquerdo, com aquele humor mais rebaixado, com aquela vontade de chorar sem nenhum motivo? Quem nunca parou pra pensar nas coisas gostosas que costumava fazer no passado, mas que hoje em dia não são tão boas assim? Acho que todos nós... E isso significa que somos depressivos? Significa de fato que estamos doentes? Ou significa que somos seres humanos, feitos de carne, osso e alguns sentimentos que – sejam eles bons ou ruins – foram feitos para serem vivenciados de vez em quando?
No mundo a fora existem milhares de pessoas que acreditam ter uma doença que não têm, simplesmente por não perceberem a natureza de suas fraquezas, por não aceitarem suas dores, por acharem que “o normal é estar bem”, por não buscarem ajuda psicológica e por aceitarem o primeiro paliativo que os médicos dão para "curar a tristeza", se é que isso seja possível. 
Para aqueles, eu sugiro que experimentem fazer o contrário. Ao invés de calma, extravasem. Chorem. Chorem o máximo que puder, chorem tudo o que estava guardado até que a última gota transborde. Não evitem lembranças, não guardem memórias pra si. Recordem, repitam e elaborem. O mundo precisa de alegria, mas, sobretudo, o mundo precisa de equilíbrio! E o que seria da felicidade sem a tristeza para equilibrar? 


Andréa Martinez