terça-feira, 5 de agosto de 2014

Recordar, Repetir e Elaborar.

Certa vez, uma amiga me chamou para conversar. Ela havia terminado o seu namoro há poucos dias e veio se queixar comigo que estava deprimida. “Que bom!” – respondi a ela, que não conteve sua expressão de surpresa – “Estranho mesmo seria se você não estivesse triste.” – e, em seguida, acolhi sua angústia. Algo semelhante aconteceu em minha primeira sessão de terapia quando eu disse à psicóloga que queria a sua ajuda para parar de sofrer. Sabiamente, ela disse que não poderia me ajudar, pois isto seria realmente impossível. Mais uma vez, surpresa. Realmente não estamos acostumados com isso.
É normal – e adequado, diria – que nos sintamos tristes diante de frustrações e perdas ao longo da vida. É normal ficar deprimido quando algo não vai bem. É normal chorar quando se está infeliz. É normal ficar cabisbaixo quando as coisas não saem conforme o planejado. É normal sofrer de vez em quando... Diria que “anormal” é quando alguém se alegra ao ser demitido de um emprego do qual gostava, ou quando sorri no enterro de um ente querido. Certamente você já ouviu histórias deste tipo e, certamente, elas lhe causaram estranheza.
Por que não nos permitimos vivenciar as nossas tristezas? De onde surgiu essa vergonha de chorar? Só nos permitimos chorar no chuveiro ou na hora de dormir. Temos medo de assumir nossas fraquezas e parecermos bobos. E quando o corpo fala mais alto e todos veem nossas lágrimas, rapidamente surgem pessoas oferecendo chá, água com açúcar, um lugar para sentar e, sobretudo, elas pedem para que você se acalme, numa luta desesperada para te ver sorrir. E quando o sorriso aparece, muda-se rapidamente de assunto para que você ignore o que está sentindo.

Muita gente ainda não se deu conta de que a tristeza é um mal necessário e que não é possível ser feliz o tempo todo. Parece que há um desconforto geral com o assunto e pouca disposição para suportar emocionalmente o sofrimento, seja pessoal ou do outro. Ultimamente tenho visto tantas pessoas se medicando desnecessariamente com ritalinas e fluoxetinas da vida, que imagino que mais triste do que ficar triste, é substituir a dor pela calma em frações de segundos.


Os dois indícios principais da Depressão são os sentimentos persistentes de tristeza e a perda de interesse ou prazer pelas coisas que costumava apreciar” (AMA, p. 42).

Agora, pense um pouco comigo: quem nunca se sentiu assim? Quem nunca acordou com o pé esquerdo, com aquele humor mais rebaixado, com aquela vontade de chorar sem nenhum motivo? Quem nunca parou pra pensar nas coisas gostosas que costumava fazer no passado, mas que hoje em dia não são tão boas assim? Acho que todos nós... E isso significa que somos depressivos? Significa de fato que estamos doentes? Ou significa que somos seres humanos, feitos de carne, osso e alguns sentimentos que – sejam eles bons ou ruins – foram feitos para serem vivenciados de vez em quando?
No mundo a fora existem milhares de pessoas que acreditam ter uma doença que não têm, simplesmente por não perceberem a natureza de suas fraquezas, por não aceitarem suas dores, por acharem que “o normal é estar bem”, por não buscarem ajuda psicológica e por aceitarem o primeiro paliativo que os médicos dão para "curar a tristeza", se é que isso seja possível. 
Para aqueles, eu sugiro que experimentem fazer o contrário. Ao invés de calma, extravasem. Chorem. Chorem o máximo que puder, chorem tudo o que estava guardado até que a última gota transborde. Não evitem lembranças, não guardem memórias pra si. Recordem, repitam e elaborem. O mundo precisa de alegria, mas, sobretudo, o mundo precisa de equilíbrio! E o que seria da felicidade sem a tristeza para equilibrar? 


Andréa Martinez 

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