domingo, 26 de outubro de 2014

Sobre Eleição e Salvação

Eu acredito que a esta altura do campeonato, para muitos, querer que seu candidato ganhe é mais uma questão de ego e de orgulho do que de princípios. Formou-se um sistema de crenças tão forte quanto o cristianismo e esqueceu-se de questionar que uma crença só faz provar que o "fenômeno crença" existe, mas não a realidade do seu conteúdo (Jung, 1986). Mas, cada um se sustenta, de algum modo, na sua própria verdade, por isso a defendem com tanto fervor.
A realidade é que os fatos estão na mesa. Cada um escolhe aqueles que lhes convém e forma sua opinião para, assim, defender o seu "Deus" - este ser maravilhoso que veio ao mundo para nos salvar. E há ainda quem acredite que seu Deus é melhor que o outro! Você conhece essa história? É, mais uma vez, a luta simbólica do "bem" contra o "mal".
O que me assusta é a quantidade de pessoas buscando por Salvação. Sim, as pessoas buscam a melhora do país, mas, sobretudo, buscam mudanças em suas vidas. Buscam alguém que mude o rumo, alguém que as salve neste mundo, alguém que mude tudo no lado de fora, para que as façam acreditar que tudo mudou do lado de dentro. Não é à toa que muitos estão tendo a oportunidade de falar: falas complexas, falas confusas, falas mal colocadas e, por vezes, nem sequer ditas. Falas de ódio, de raiva, de esperança, de acomodação, de autossuficiência. Em suma, amarguras internas dirigidas aos partidos: pessoas denunciando e pessoas denunciando-se. 

A verdade é que as redes sociais viraram uma grande sala de terapia, com muitos pacientes e poucos psicólogos.

Andréa Martinez

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Trechos de Livro #1 - Memórias, Sonhos e Reflexões

Os Melhores Trechos de Jung em Memórias, Sonhos e Reflexões.


- "[...] o doente tem uma história que não é contada e que, em geral, ninguém conhece. Para mim a verdadeira terapia só começa depois de examinada a história pessoal. Esta representa o segredo do paciente [...]. " (p. 110)


- "Os diagnósticos são importantes pelo fato de proporcionarem uma certa orientação, embora não ajudem o paciente. O ponto decisivo é a questão da história do doente, pois revela o fundo humano, o sofrimento humano e somente aí pode intervir a terapia do médico." (p. 115)

- "A psicoterapia e as análises são tão diversas quanto os indivíduos. Trato cada doente tão individualmente quanto possível, pois a solução do problema é sempre pessoal. Não é possível estabelecer regras gerais [...]. Uma solução falsa para mim pode ser justamente a verdadeira para outra pessoa." (p. 120)

- “O fato decisivo é que enquanto ser humano, encontro-me diante de um outro ser humano. A análise é um diálogo que tem necessidade de dois interlocutores. O analista e o doente se encontram, face a face, olhos nos olhos. O médico tem alguma coisa a dizer, mas o doente também." (p. 121)

- "[...] não se trata de confirmar uma teoria, mas de fazer com que o doente se compreenda a si mesmo como indivíduo." (p. 121)

- "A alma é muito mais complexa e inacessível que o corpo." (p. 121

- “Queria tornar-se analista. ‘O senhor sabe – disse eu – o que isso significa? Significa que deverá conhecer-se primeiro a si mesmo para tornar-se um instrumento; se não estiver em ordem, como reagirá o doente? Se não estiver convencido, como persuadirá o doente? O senhor mesmo deverá ser a matéria a ser trabalhada. Se não, que Deus o ajude! Conduzirá os doentes por caminhos falsos. Será preciso, inicialmente, que o senhor mesmo assuma a sua análise.'" (p. 123)

- “Nunca tento converter um doente ao que quer que seja, não exerço sobre ele qualquer pressão. O que importa acima de tudo, é que o doente chegue à sua própria concepção." (p. 126)

- “O encontro com meus analisandos e o confronto com o fenômeno psíquico que eles e meus doentes me propuseram, me ensinaram infinitas coisas, não somente acerca dos dados científicos, mas também relativamente à compreensão de meu próprio ser." (p. 131)

- Freud nunca se interrogou acerca do motivo pelo qual precisava falar continuamente sobre sexo, porque esse pensamento a tal ponto se apoderara dele. [...] Talvez só a uma experiência interior de cunho pessoal teria podido abrir-lhe os olhos." (p. 138)

- "Não se pode abandonar uma forma de vida sem mudá-la para outra." (p. 149)

- "Não é exagero dizer que a consciência da civilização que reina hoje em dia, na medida em que reflete sobre si mesma filosoficamente, ainda não aceitou a ideia do inconsciente e de suas consequências, se bem que esteja confrontada com ele há mais de meio século." (p. 151)

- "[...] os homens, hoje, se identificam apenas com a consciência e imaginam ser apenas aquilo que conhecem de si próprios. [...] O racionalismo e a doutrinação são doenças do nosso tempo; pretendem ter resposta pra tudo." (p. 260)

- "Há pessoas que não sentem nenhuma necessidade de imortalidade e que se arrepiam à ideia de ficar durante milênios sentados numa nuvem, tocando harpa! Também há outros - e são numerosos - tão maltratados pela vida e que experimentam tal desgosto pela própria existência, que um fim absoluto lhes parecerá bem mais desejável do que qualquer forma de continuidade." (p. 262)

"Uma crença prova apenas a existência do 'fenômeno crença', mas de nenhuma forma a realidade de seu conteúdo." (p. 276)

- "Algumas coisas poderiam ter sido diferentes se eu mesmo tivesse sido diferente. Assim, pois, as coisas foram o que tinham de ser, pois foram o que foram porque eu sou como sou." (p. 309)

- "O mundo no qual penetramos é brutal, cruel e, ao mesmo tempo, de uma beleza divina. Achar que a vida tem ou não sentido é uma questão de temperamento." (p. 310)

- "Sim, assim são os jovens, só experimentam verdadeira alegria lá onde podem caminhar sem nós [pais], onde nossa respiração mito curta e nossas pernas fatigadas não nos permitam segui-los."


- "Nada há a fazer contra isso e cada qual tem razão de obedecer ao encadeamento de seus impulsos."

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Resumindo: Memórias, Sonhos e Reflexões.

O livro "Memórias, Sonhos e Reflexões" de Carl Gustav Jung, era um dos livros que estava estacionado na minha estante, esperando o momento certo para ser lido. 
Trata-se da autobiografia/autoanálise de Jung, onde não houve medição das palavras. Ele foi minucioso, expôs os mínimos detalhes, foi prolixo e nada objetivo - mas não há como esperar o contrário numa análise. 
Na minha opinião, o que torna este livro incrível são, basicamente, os capítulos que falam sobre a Atividade Psiquiátrica e sobre a aproximação que Jung teve como Sigmund Freud. O Encontro com o Inconsciente e as Cartas finais também me chamaram atenção. Os demais capítulos tratam mais sobre a infância, anos escolares, temas afins e detalhes da vida de Jung, relatando como ele formulou sua teoria.
São 360 páginas, densas, de pura vida e obra. Se por um lado esta riqueza de detalhes é positiva para o entendimento – jamais completo – do que se passou na cabeça de Jung em todos estes anos, por outro lado, ler estes detalhes torna, em parte, a leitura um pouco maçante. Meu conselho: antes da leitura, beba uma xícara de café e tenha em mãos um bom marcador de texto (ou dois). 

Aqui eu trago, resumidamente, pontos do que julgo mais importante. Caso você queira saber mais profundamente sobre os conceitos jungianos, este não é o livro que você procura. Mas se você, assim como eu, admira Jung e tem interesse em saber sobre sua história de vida, sim, este é um livro riquíssimo. 

 “Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou.” (Jung, p.19)

Jung nasceu em 1875 e, desde a sua infância, era muito ligado à religião e aos sonhos que tinha. Foi no início do século seguinte, quando Freud descobriu o inconsciente, que Jung começou a se formar. O inconsciente foi um marco, portanto, não só para a psicologia, mas para o próprio Jung, determinando o fluxo de sua vida. Ele não só explicou os mitos, os símbolos e o inconsciente coletivo, como se explicou em função disso.
Foi Freud também um dos primeiros a introduzir a questão da psicologia na psiquiatria. Até então, os doentes mentais eram analisados somente em seus sintomas e com o objetivo de se fechar um diagnóstico. O lado humano do atendimento, em ver cada doente como um indivíduo, não existia até então. Este foi um dos pontos que fez de Jung um grande admirador das pesquisas e trabalhos de Freud, pois ele compartilhava desta ideia, e passou a seguir esta ideologia, com sucesso, em sua prática clínica.
Com isso, Jung também estava mostrando ao mundo um novo método de atender seus pacientes, o método analítico. Aos poucos, os demais profissionais começaram a se interessar e a querer descobrir quais as regras para estes atendimentos. No entanto, Jung evitava ser sistemático, pois acreditava que cada doente exigia o emprego de uma linguagem diferente. Além disso, ele não tinha pretensão de confirmar sua teoria, mas de fazer com que o paciente compreendesse a si mesmo. Jung defendia também que o terapeuta conhecesse a si próprio, e não apenas ao doente, pois acreditava que somente quando dominamos os próprios problemas, é que se torna possível o cuidado ao paciente.
Freud à esquerda e Junga à direita.
O ponto alto deste livro é, a meu ver, o encontro de Jung com Freud. Jung abordou sua relação com ele e as viagens que fizeram juntos. É um capítulo maravilhoso, em que é possível perceber que existia ali uma relação autêntica de amizade, mas que havia também um conflito, pois desde o início era forte a diferença nos pontos de vista sobre os traumas sexuais e a libido. Chego a dizer que, mesmo com diferentes convicções, Jung foi o maior fã e admirador do trabalho de Freud – e isto perdurou após a ruptura dos dois. Foi de tanto escrever sobre ele que Jung foi convidado pelo próprio Freud para uma conversa que mudaria o rumo de sua vida. A admiração era tamanha que Jung aceitou correr os riscos que aquilo lhe proporcionava, afinal, naquela época, Freud não era visto com bons olhos pela sociedade conservadora, que não aceitou de forma harmoniosa sua teoria acerca da sexualidade infantil. Era arriscado para a formação de Jung seu contato com Freud, mas ainda assim ele o fez.
Jung coloca que via em Freud “um grande homem”, inteligente, mais velho e maduro – como um pai. Dizia que aquela amizade era muito preciosa para ele e que não se sentia à altura do mestre para manter qualquer discussão. Ele admirava o fato de Freud acreditar tão fielmente em sua teoria da sexualidade, mas, até certo ponto, isto o assustava. Jung tinha dúvidas sobre até que ponto a necessidade de tornar esta teoria um dogma não representava uma vontade de poder pessoal. Além disso, Jung começou a desconfiar que o próprio Freud sofria de uma neurose, pois o tema da sexualidade era muito presente e havia se apoderado dele.
Seu conflito interno se deu porque Jung estava tão impressionado pela personalidade de Freud, que renunciou seu próprio julgamento. Não se sentia qualificado para confrontá-lo e ao mesmo tempo, temia perder sua amizade. Mas no fundo ele sabia que não devia calar seu modo de pensar e assim o fez: “rompeu” sua relação com Freud.
Por muito tempo, quando ouvi falar da ruptura de Freud e Jung, acreditava que eles tivessem se tornado inimigos ou coisa parecida. Minha surpresa foi ver que nada disso ocorreu. Até o fim de sua vida, Jung fez grandes observações sobre Freud, reconhecendo sua coragem em lançar uma teoria tão inovadora e as consequências positivas do seu trabalho, e este último sempre lhe escreveu cartas assinando, por vezes, como “Seu amigo fiel, Freud” e dizendo-lhe que: “cada qual tem a razão de obedecer ao encadeamento de seus impulsos.” (p. 319). Isto mostra que apesar de discordarem um do outro, havia o respeito mútuo.

OBS: Este capítulo me valeu o livro inteiro. 

Após a ruptura, Jung descreve a sua desorientação e o período em que se manteve em sua autoanálise, com a interpretação de seus sonhos. Descreveu seus medos e sua quase passagem para o mundo da loucura e desordem: o inconsciente. Descreveu também como ocorreu seu contato com a alquimia e como esta temática tem total ligação com sua teoria. Jung percebeu que a alquimia lidava com símbolos históricos e, para ele, que já pensava nos arquétipos e no inconsciente coletivo, aquilo lhe caiu como uma luva e lhe deu embasamento para seu método analítico e para o conhecimento de si próprio. Foi neste momento, afirma ele, que começou a seguir seu próprio caminho e, enfim, a escrever sobre os Tipos Psicológicos, sobre sua teoria da Libido, sobre o processo de individuação, anima e animus, e sobre os mitos. E assim nasceu um mestre. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Sobre a Morte e o "Não Saber".

Esta semana me deparei com um senhor sentado numa poça de urina no meio da calçada. Ele estava mal vestido, babando, não conseguia levantar e tinha o olhar de quem pedia ajuda. Não pude conter minha preocupação em torno de sua fragilidade e me aproximei dele. Como pensei que se tratava de um caso de abandono, pedi sua permissão para tirar uma foto e ali, em meio ao ponto de ônibus, iniciamos um diálogo.
Não era de se estranhar que o senhor G. não estava lúcido. Ainda assim, sua necessidade de conversar se fazia evidente pois seus olhos não se desconectaram dos meus. Mas a dificuldade em verbalizar dificultava também a compreensão das palavras. Não demorou muito para que ele começasse a chorar e, para o meu espanto, pude entendê-lo dizer com clareza: “Minha filha, eu estou com medo da morte”.
Aquelas palavras me pegaram de surpresa. Não havia como dar início a uma terapia breve em plena avenida, até porque àquela altura da conversa, curiosos já haviam se aproximado e, no ímpeto de ajudar, faziam muitas perguntas ao mesmo tempo e insistiam que aquilo devia ser depressão, alcoolismo, diabetes, hipertensão, hipoglicemia e o que mais viesse na cabeça. Então, coube a mim deixar bem claro que eu estava ali com ele para ajudá-lo e o acalmei da maneira que pude até que a ambulância chegasse.

...Mas aquelas palavras não saíram da minha cabeça.

Apesar da morte ser natural, ela ainda é um tabu. As pessoas fogem deste tema e há inclusive quem bata na madeira três vezes quando ele vem à tona. Isso porque, além da morte ir contra o nosso instinto de conservação, de preservação da vida, ela é vazia, é o nada, é a não existência. Ou seja, sabemos da vida, mas a morte é um mistério, e o mistério assusta.
Penso que a questão principal é que nós, seres humanos, não suportamos o "não saber". Esta necessidade de ter todas as respostas na mão, acompanhada do desejo inconsciente de ser imortal, nos faz entrar em conflito quando nos deparamos com a morte. Não é à toa que a humanidade criou teorias, com ou sem embasamento religioso, para lidar com isso. Já outras pessoas ainda não descobriram como lidar com ela, e isto gera sofrimento.
É a ideia de finitude que nos apavora e, por isso, existe dentro de nós uma necessidade de dar continuidade à vida. Para uns, tem gente que vai viver no céu, para outros, tem gente que vira estrela... Mas deixar de existir está fora de questão.

– (...) Morra no momento certo. Viva enquanto viver! A morte perde seu terror quando se morre depois de consumida a própria vida. Caso não se viva no tempo certo, então nunca se conseguirá morrer no momento certo. (...) Você viveu sua vida? Ou foi vivido por ela?” 
–Quando Nietzsche Chorou.


*Senhor G. foi levado ao hospital. Encontramos sua esposa e ela confirmou que ele era depressivo e que havia misturado álcool com o remédio controlado. Ele não havia sido abandonado. Apenas passou mal quando voltava para casa.