segunda-feira, 11 de abril de 2016

Mary Temple Grandin

A palavra “Autismo” ainda carregar um significado fixo e espantoso para a maioria das pessoas. No entanto, pouco ou nada se fala sobre o fato de que existem formas de autismo que não tornam o indivíduo tão incapaz assim, mesmo que ele possa realmente ter formas de pensamento e percepção diferentes do habitual.

Estudando um pouco sobre o assunto, encontrei a autobiografia "Mistérios de uma Mente Autista" (2011), que é a tradução do Best-Seller americano "Thinking in Pictures”, e confesso que o livro me chamou bastante a atenção. Trata-se do segundo livro escrito por Mary Temple Grandin, uma mulher com Síndrome de Asperger, também conhecida como Autismo de alto funcionamento.

Mary Temple Grandin nasceu em 1947, em Boston, Massachusetts, EUA. Em sua autobiografia, “Mistérios de uma Mente Autista”, ela explica que a primeira evidência de que ela não era como os outros bebês, veio aos dois anos, quando sua mãe constatou que, diferente dos demás bebês de sua idade, ela tinha um comportamento terrível. Tinha crises ao ser carregada, brincava com suas próprias fezes, não falava como as outras crianças, não tinha interesse nas pessoas e seu olhar estava sempre fixo no espaço, pois não fazia contato visual, aparentando, inicialmente ser surda. Aqueles já eram os sintomas clássicos do autismo se apresentando, mas, naquela época, os neurologistas lhe deram o diagnóstico de “cérebro danificado”.

Por não conseguir falar até os três anos de idade, apesar de comprender o que as pessoas ao seu redor diziam, Temple relata sua aflição e de como isso influenciava em suas crises. Ela sabia que a única maneira de se comunicar era gritando e se debatendo, por isso, o fazia incontroladamente. O cansaço e o barulho excessivo eram grandes impulsores de crises, pois a deixavam estressada. Cabia aos demais presentes não ficarem nervosos ou agitados e, em outras circunstâncias, prevenir os estímulos impulsores de crises.

Temple relata ainda que foi apenas depois de entrar na Faculdade que começou a dar-se conta sobre o modo como o seu pensamento se processava e de como ele era diferente do pensamento da maioria das pessoas. Seu pensamento – bem como o de muitos autistas (mas não todos) – não utiliza linguagem. Ela pensa através de imagens vividamente detalhadas, enquanto a maioria pensa em combinação de palavras somadas a imagens vagas e genéricas. Sobre este último, ela explica que não tem, por exemplo, uma imagem mental genérica de um cachorro. Quando pensa em um cachorro, é sempre um cachorro de alguém, um cachorro real, o qual ela já conheceu. E diz ainda que ao longo de sua vida, precisou criar imagens mentais para palavras abstratas (como paz, amor e honestidade), bem como para conceitos como “se dar bem com as pessoas” ou “partir para outra”, com o intuito de compreendê-las.

Em sua autobiografia, Temple explica também que seu pensamento é associativo, o que lhe faz ter devaneios continuamente, de modo que cada memória leva a outra, fazendo-a facilmente desviar-se do assunto. Isso pode influenciar também no uso das palavras de maneira inadequada, de modo que uma criança autista pode, por exemplo, dizer a palavra “cachorro” quando quiser ir ao quintal, pois a palavra “cachorro” em seu pensamento associativo está vinculada à ideia de ir ao quintal.

Por sorte, Temple conseguiu controlar seus devaneios com o passar dos anos, mas pessoas com grau mais elevado de autismo têm mais dificuldade de interromper esse tipo de associações infinitas.

Outras dificuldades que Temple relata, e que pode se expandir a outros autistas também, são: a dificuldade para aceitar mudanças na rotina; dificuldade para saber quais são seus limites corporais; de não conseguir imaginar o que as outras pessoas estão pensando; ou de não conseguir ler os sinais que indicam como elas se sentem; de não se conectarem com as pessoas; problemas sensoriais que podem causar dor ou incomodar, dentre outros.

Hoje Temple tem 69 anos de idade e uma carreira internacional bem sucedida. Possui um mestrado e é Phd em Ciência Animal e seu trabalho é projetar equipamento para animais (especialmente gado) de fazendas. Além disso, ela é uma renomada autora e palestrante sobre o Autismo e foi nomeada uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, em 2010, sendo uma fonte de inspiração para muitas famílias e profissionais ao redor do mundo.
Em sua biografia ela relata que foi a intervenção precoce - iniciada aos 2 anos e meio de idade - que a ajudou a superar sua deficiência. Dessa forma, Temple chocou o mundo por conseguir provar que as características do autismo podem ser modificadas e controladas, e que o autismo pode permitir vidas cheias de acontecimentos e conquistas, principalmente se houver um alto nível entendimento e educação.

Temple chocou o mundo ao publicar o livro "Uma Menina Estranha", a primeira narrativa interior sobre o autismo, em 1986 – uma época em que acreditava-se que este lado interior do autista não existia. E, ao escrevê-lo, ela falou por si e por milhares de outros adultos autistas. Este primeiro livro forneceu forte efeito no pensamento médico de trinta anos atrás sobre 'o que é ser autista', mas, sobretudo, foi e segue sendo um documento fascinante em termos humanos. 

É um livro muito rico para todos os púbicos, mas principalmente para Psicólogos, Psiquiatras, familiares de crianças com o espectro Autista e também Professores, já que, no decorrer da autobiografia dá dicas de como agir com pessoas com a síndrome; informa os meios para se detecta-la e suas possíveis causas. Además, explica como conseguiu vencer na vida e tornar-se uma autoridade internacional no ramo da pecuária.