quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Sobre descascar Tangerinas e a Educação Especial

Talvez as pessoas só percebam o quanto é difícil "comer" quando têm filhos pequenos ou, como eu, quando cuidam de crianças. Nos esquecemos deste detalhe, mas não nascemos sabendo nos portar à mesa - e com esta afirmação eu não faço referência àqueles que não fizeram aulas de etiqueta. O que quero dizer é que pegar um chocolate com a mão e levá-lo até a boca enquanto a televisão está ligada é uma tarefa simples até mesmo para um recém nascido. Mas o "comer" do qual me refiro vai muito além disso. Falo de todo o ritual que envolve a hora da alimentação, seja no café da manhã, almoço ou jantar: 
sentar-se na cadeira, esperar que a comida chegue à mesa, segurar um talher, comer salada e, somente de vez em quando, batata frita com hambúrguer. Falo ainda sobre saber que a sobremesa só vem ao final, sobre limpar a boca com o guardanapo, sobre levantar-se e lavar as mãos se necessário. E entre cada uma dessas ações, existem outras tantas, como puxar a cadeira para sentar-se, permanecer sentado, saber diferenciar uma colher de um garfo, empurrar a cadeira para dentro da mesa ao levantar-se ou, simplesmente, mastigar e engolir. 
Ufa, quanta coisa não é verdade? Para um adulto comum, estas são tarefas tão simples como acordar, beber uma xícara de café e sair para trabalhar. Diria que até para uma criança comum - dessas que já controlam seus movimentos finos, que têm sua atenção desenvolvida e que possuem um sistema familiar e educacional que lhes estabelece regras e limites - "comer" é uma tarefa simples e automática. Tão simples que parece raro que alguém tenha que trabalhar ensinando este tipo de coisa. Mas é o que eu faço: trabalho em um comedor escolar em Barcelona e meu trabalho, dentre outras coisas, é ensinar crianças a comer.

Por incrível que pareça, meus alunos são crianças comuns, ainda que não sejam como as crianças que vocês estão acostumados a ver por aí, mas há milhões delas espalhados pelo mundo. O que acontece é que nem todas estão suficientemente integradas à sociedade e, por isso, talvez você não conheça nenhuma. Eu costumo chamá-las de "minhas crianças", mas você entenderá melhor este texto se eu disser que são alunos de Educação Especial: autismo, síndrome de down, TDAH e transtornos do desenvolvimento são apenas alguns dos diagnósticos com os quais lidamos na escola. Junto a uma equipe, ensino crianças a comer para que elas deixem de ser "nossas" e possam ser "do mundo", ou melhor, "delas mesmas". A independência ou a dependência parcial é o grande objetivo do nosso trabalho na escola, e não a adequação comportamental destes alunos - que nega a individualidade do ser e a sua expressão corporal fora do comum.

O que me motivou a escrever este texto foi porque hoje eu pude auxiliar a um menino de 10 anos, autista, a descascar uma tangerina, respeitando o seu espaço e o seu tempo. Para mim, era uma simples fruta. Para ele, uma bomba relógio difícil de desmontar. Seu cuidado, concentração e persistência eram tão evidentes que aquele momento mais parecia uma cirurgia de risco. E a mim coube apenas o papel de motivá-lo a seguir em frente. No final, uma vitória e um sorriso. Comemoramos aquela conquista juntos e, sem falar, ele quis descascar outra.

Concluo que a Educação Especial tem dessas: alguém especial que te torna um ser ainda mais Especial. Feliz em poder fazer parte disso e de poder comemorar as conquistas mais simples.